Este artigo é baseado em entrevista concedida à Revista Francisca, edição 69.
A sexualidade nasceu com o ser humano e irá acabar com ele. Essa afirmação pode parecer óbvia, mas surpreende quantas pessoas chegam à maturidade convictas de que o desejo tem prazo de validade.
Não tem. O que muda com o tempo é a forma como ele se expressa.
Falo de sexualidade em sentido amplo: vai do prazer de um olhar, de um toque, de uma troca de intimidade, até a relação sexual propriamente dita. Não está restrita ao desempenho, ao orgasmo ou aos hormônios. É erotização, é a sensação de estar presente para alguém e para si mesmo. A possibilidade do encontro, seja com o outro ou consigo, já é fonte de prazer. É pulsar. É a sensação de estar vivo.
A qualidade da vida afetiva e sexual na terceira idade não surge do nada. Ela é construída ao longo de toda a história de uma pessoa. Se havia inibições antes dos sessenta anos, essas dificuldades tenderão a permanecer. Se a relação com o próprio corpo já era conflituosa na juventude, um corpo envelhecido provavelmente ampliará esse conflito. Mas, quando a sexualidade vai além da estética e da performance, ela sobrevive às décadas com dignidade. A maturidade, nesse sentido, tem muito mais a ver com personalidade amadurecida do que com jovialidade.
Os relacionamentos afetivos depois dos cinquenta ou sessenta anos trazem consigo histórias longas: casamentos anteriores, filhos, netos, perdas, frustrações, medos. Não são os medos do desconhecido. São os medos do que já se conhece bem: a doença, a limitação, a morte. Mas também trazem algo que a juventude não tem: profundidade. A experiência de vida muda o que buscamos, o que valorizamos, o que nos satisfaz.
Um erro comum das famílias é não perceber isso. A pessoa mais velha frequentemente se vê cobrada a ser quem foi, não quem se tornou. Quando não é ignorada, é poupada de forma excessiva, tratada como alguém que atrapalha ou não acompanha. O idoso que repete histórias, que não domina o celular, que só fala de doenças, vira um peso, quando poderia ser um interlocutor. Incluir o mais velho na vida familiar e social, respeitar sua autonomia afetiva e permitir que vivencie novos relacionamentos quando assim desejar são formas concretas de cuidado.
Para casais que envelhecem juntos, a orientação não é diferente do que a vida sempre pediu: continuar namorando. Ir a lugares bonitos. Encontrar prazer nas coisas simples. Aceitar as limitações com humor e sabedoria, sem cobrar de si o que já não cabe. Apoiar um ao outro nessa fase com a mesma lealdade das outras.
Porque o amor, como o desejo, não tem prazo.
Reportagem por: Marlise Groth Mem




