Em época de eleições, vale a pena sentar diante desse suspense espanhol e se deixar desconfortar. O Candidato (2018), com Antonio de la Torre no papel do político Manuel, vai além do thriller de corrupção. É um estudo sobre o que acontece com um homem quando o partido, a família e a mídia exigem, cada um à sua maneira, que ele abandone a si mesmo.
O filme acompanha Manuel enquanto escândalos o envolvem, a opinião pública julga e as pessoas mais próximas passam a olhá-lo com estranheza. Não há vilão cartunesco. O filme aposta em algo mais perturbador: um processo lento, quase imperceptível, de adaptação.
Freud nos ensinou que o ego trabalha incessantemente para conciliar três exigências simultâneas: o que desejamos, o que a realidade permite e o que nossa consciência moral tolera. Quando essas três forças entram em colapso, o sujeito não desmorona de uma vez. Ele negocia. Cede aqui, racionaliza ali, convence a si mesmo de que as circunstâncias não deixaram outra saída. É esse processo que o filme captura com precisão clínica.
O que torna O Candidato rico é que ele não abandona Manuel no espaço público. Acompanhamos também o que acontece dentro de casa, nas relações com a família, nos momentos em que a performance cessa e resta o homem. É nesses instantes que o filme se torna mais honesto e mais difícil de assistir, porque nos obriga a reconhecer que a fronteira entre o que fazemos por necessidade e o que fazemos por escolha é muito menos clara do que gostaríamos de acreditar.
Saímos com poucas certezas e uma pergunta que insiste em ficar: numa situação assim, o que cada um de nós faria?
O Candidato está disponível em plataformas de streaming. Recomendo.




